O deus do Real - I
1
1. Ele estava erguido sobre a rocha milenar no topo do monte espírito santo e realizava encantamentos de fusão com o propósito de transmutar a realidade à sua volta e a ele próprio.
2. Ele inspirava o ar que o rodeava e, depois de reter em si mesmo uma parte dele, expirava-o juntamente com parte da sua própria energia pessoal para que ele fosse o ar e o ar fosse também ele. Entretanto Proferia as palavras de Poder:
– Eu sou o Ar, e o Ar sou Eu. Eu e o Ar Somos Um. O Ar e Eu Somos Um. Eus Ar Somos Um... Eus Ar Sum!
3. Observou toda a paisagem que se estendia para baixo de si e até ao longe, até ao horizonte: o rio, as casas, as estradas, o mar, o céu...
Tudo aquilo fazia parte do Real sobre o qual queria actuar, dirigir e transmutar através do filtro modelador do prisma da sua própria consciência.
Mas, essencial para isso, era aumentar o seu poder pessoal “comendo” e/ou fundindo-se com todos os elementos da natureza.
Ele seria o farol do mundo. O cristal que recriaria um mundo lindo e doce...
4. Ele escalara aquele monte para poder visualizar, de cima, uma grande extensão do Real. Mas escalava também, dentro de si, para se transformar no gestor da Realidade.
5. Ele principiava a sentir que, de um modo ainda subtil, influenciava já o que o rodeava. Atlan começava a imprimir algumas tendências éticas e ascendentes no Real que eram já, pelo menos, subliminarmente perceptíveis. Isso dava-lhe ânimo e força para prosseguir...
2
1. Em frente a Ele ardia um faixa de pinhal. “O fogo só queima aquilo que não é também fogo”, pensava Atlan ao sentir as faces afogueadas pelo calor.
Arrancou um pequeno ramo que ardia e, depois de ter expirado todo o ar dos seus pulmões, inspirou profundamente a chama que através da sucção mergulhava através da sua boca como um feixe afunilado. Ele reteve o fogo dentro de si procurando, de algum modo, incorporá-lo em si mesmo. “O poder do fogo é imenso”, sentiu Atlan. E proferiu enquanto expirava:
– Eu Sou o Fogo, e o Fogo Sou Eu. Eus e o Fogo Somos Um. O Fogo e Eus somos Um. Eus Fogo Sum!
... e atravessou, qual fogo dentro do fogo, a faixa de pinhal em chamas.
E não se queimou.
Porque ele amava o Fogo e o Fogo e Ele eram Um.
3
1. Ele estava em frente às Vagas imensas do mar furioso. Por vezes, aquelas que aparentemente seriam as fusões mais simples, tornavam-se as mais intransponíveis. E para as ultrapassar seria necessário o arrojo de um verdadeiro deus.
O deus do Real - II
1. Eu sei que sou um deus.
Apesar de tentarem fazer-me crer o contrário.
Sei que os que me rodeiam neste mundo preferem manter-me adormecido. Descrente da minha verdadeira natureza. Porque assim, como duvido daquilo que sou, o meu poder é limitado. Muito limitado.
Todos os outros preferem que eu seja um deus dormente...
...porque temem as mudanças.
Evidentemente que muito poucos serão os que sabem desta verdade.
“Dorme, dorme meu menino, porque assim não agitas o mundo... e podemos continuar a viver nesta nossa mediocridade...”
“...os deuses, se pudermos, crucificámo-los. Mas temos medo das consequências. Preferimos mantê-los inactivos, neutralizados.
Esta própria palavra “deus” está tão adulterada que vou bani-la do meu dicionário. Doravante passarei a designar a minha própria natureza com outro nome...